A paz que concretiza a revolta
É simbolizada pelas ações
Que desatam os grilhões
Mas mantem os cães em sua volta…

A sobra que sugere a luz
É a mesma e tal,
Que com destemor sem igual
Balança o látego que o conduz…

A consciência que cala e consola
Desfaz a palavra não dita
Que de tão abençoada se torna maldita…
Arrasta, arrasa, sangra e desola…

O intelecto que nutre o ego
Carrega em si a desolação.
O desassossego sem perdão
É a raiz da trilha que rastejo…

Da ira se fez o pão…
Do sorriso se fez o ódio…
Da bela flor, o ópio…
Do estrondo, a mais sublime canção.

Marcelo Belini

Aphorismos

Publicado: fevereiro 3, 2012 em Poemas

Aforismo Primeiro:
A esperança é como uma centelha que arde em meu peito… É o farmakon que, de tanto utilizado já não faz efeito.

Aforismo Segundo:
Nada melhor que a maldição temporal ou execração cronológica para demonstrar todo tipo de tolice existencial que é capaz esse tal “ser humano”…

Aforismo Terceiro:
A realidade aparente é a subjetivação do próprio “Eu” enquanto fenômeno exteriorizado.

Aforismo Quarto:
Na melhor das hipóteses, uma discussão religiosa serve apenas para aumentar a sensação inversa de altas doses de Valium.

Marcelo Belini

Ideal

Publicado: dezembro 12, 2011 em Poemas

O ideal seria se vivêssemos sem o medo do mistério que cerca a finitude existencial e morrêssemos por aquilo que se pôde denominar de “vida”.
Marcelo Belini

Uma passagem amorosa

Publicado: novembro 5, 2011 em Poemas

A noção, mesmo ilusória, do amor não pode ser aceita como a representação fidedigna de um “paraíso edênico”, mas, com absoluta certeza, faz com que evitemos algumas passagens mefistofélicas dentre labirintos infernais.

Marcelo Belini

Banalidade sedutora

Publicado: outubro 14, 2011 em Poemas

Inesperadamente tudo se torna banal…
Ou eu poderia ter previsto?
O bem já não importa se é mal
E o susto é a monotonia em que existo…

Seja como for, assim o é…
Tal qual a ideia mazelada
A blasfêmia se fortalece na fé -
Mesmo a fé se alicerçando no nada…

O absurdo passa a ser a salvação:
A falta de sentido e o estranhamento…
Um sim equivale à negação
E o abraço é construído no afastamento.

Marcelo Belini

O despertar

Publicado: outubro 13, 2011 em Poemas

Hoje acordei estranho…
Parecia que despertara
em busca da
felicidade…
Procurei o relógio
para saber em que momento
eu poderia tirar essa ideia
da cabeça…
Virei para o canto e
adormeci.
O sono é sempre
uma boa solução
para uma imaginação
estúpida e ideias
ordinárias…

Marcelo Belini

O despertador toca. Levanto-me cedo
– quem dera em meus dias mais discretos,
pudesse acordar, somente, e não ser acordado
por algum mecanismo tecnológico.
Assim que coloco meus pés no chão
- após sair da cama –
a primeira coisa que faço é procurar meu maço de cigarros.
Acendo um ainda na sala,
visualizando a televisão ainda desligada
que parece transmitir e reproduzir
imagens fantasmagóricas vindas de meus adágios
(ou apenas lembranças de um tempo ido).
Mais uma manhã tradicional em minha existência
– no melhor sentido sartreano da palavra.
Depois de refletir acerca do meu dia que se apropinqua,
saio da sala e vou à cozinha.
Abdico de preparar o café
(geralmente não o faço – a água parece-me
fazer bem logo que desperto e é bem mais vantajosa
para aqueles que não se sentem à vontade
diante aos afazeres gastronômicos).
Se bem que o café deixa o ambiente perfumado,
com um aroma de casa do campo,
onde as preocupações pelo cotidiano parecem
nos deixar em paz e os contatos
com a natureza… mesmo nos trabalhos braçais,
fazem-nos, aparentemente, mais humanos,
“humanos em demasia” eu diria.
Geralmente após esses primeiros rituais,
dirijo-me ao banho.
“Banho gelado logo pela manhã
nos favorece para o restante do dia!”
já diziam os Russos
– se bem que ainda quero encontrar com
o pascácio que acostumado com o clima
de inverno constante disse isso pela primeira vez
e lhe confrontar alertando que as coisas pela manhã
nem sempre são aquilo que as frases feitas revelam.
O banho se demonstra amigável como de costume
(talvez eu estivesse valorizando demais o frio matinal)
e ainda com os pensamentos se deslocando
em uma velocidade incrível e de maneira tal
como se não existisse uma ordem lógica dos fatos,
esqueço ou não percebo os calafrios que a água fria me acarreta.
Enquanto o tempo se esvai,
continuo com pensamentos de adeus (assim eu os chamo).
Mesmo que não os queira,
tais pensamentos parecem se edificar
em algum recanto obscuro e calmo de minha alma
– essa palavra (alma) soa-me poeticamente suave,
ainda que eu não acredite em vocábulos
que representem alocuções metafísicas ou teológicas -,
essas reflexões nascem na ocasião em que
rememoro os momentos que não vivi
ou instantes que ainda não se fizeram tangíveis,
por isso parece que digo adeus à eles,
pois bem sei que mesmo que vivesse
mil vidas iguais a mesma que vivo,
não seriam suficientes para contemplar
meus atilamentos desejosos de atitudes
que me afastem da monotonia do tempo presente.
A água cai intensamente em minha já cabisbaixa existência.
Olho-me diante do espelho e
Questiono-me se deveria aparar a barba falha
e o cabelo (que parece de alguém que acabou
de sair dos dias de insanidades do festival de Woodstock)
ou se simplesmente deixo a natureza se manifestar.
Mais uma vez a natureza vence
e a longa cabeleira e os fios de barba
permanecem como se já estivessem nascidos ali.
Ando até meu quarto.
Já no quarto, começo a fazer escolhas.
Qual a melhor camisa?
Com qual calça passarei o dia?
Qual a cor do par de meias que utilizarei?
Exclamações de angústias (quiméricas angústias) nascem.
De repente, me pego com um sorriso irônico
(ou seria sarcasmo?)
nos lábios e o primeiro pensamento
que aparece logo após essa surpresa,
é o fato das alternativas casuais.
Preparar-me para que?
Vestir-me adequadamente para quais ocasiões?
Ocasiões que nem sei se existirão ou se vierem,
quais seriam seus benefícios ou malefícios?
Sorrateiramente me lembro de certas expressões
contidas em algum dos meus livros lidos e relidos com devoção:
“a roupa serve apenas para cobrir aquilo que é belo”.
Essas palavras me confortam,
então não mais opto por roupa alguma e
apenas alcanço a primeira que minhas mãos tocam,
substituindo assim dúvidas tacanhas
por ações mais mesquinhas ainda.
As alternativas casuais subitamente
fazem-me relembrar Dostoiévisk
em sua obra “Memórias do subsolo”
– logo em seu início:
“sou um homem doente…
sou um homem mau.
Um homem desagradável”.
Mas por que tamanho alarde
sobre tais circunstancias?
E mais um dia se lança ao meu encalço…

Marcelo Belini

Verborragia matinal

Publicado: setembro 20, 2011 em Poemas

O sol se levanta antes de mim
ou eu nem percebi que ele não
estava lá quando levantei?
Bom, isso pouco importa…
O que me resta de um dia prestes
a se mostrar infrutífero
é o cigarro comprado ontem à noite,
amassado (como a minha face ao acordar),
mas, fortificante e prazeroso (como um orgasmo
nunca antes imaginado…)
Não sei de certo onde meus pensamentos
me levarão… Se não me levarem a lugar algum
também não mostrará diferença…
E todos me avisavam:
- “Você tem que dar certo na vida!”…
E eu pensava: “dar certo pra quê?”
Se a vida não passa de um emaranhado
de momentos infecundos que
teimamos em buscar significados
mais inúteis ainda…
Tudo não passa de metafísica…
E metafísica é um porre!

Marcelo Belini

Insurreição apologética

Publicado: agosto 24, 2011 em Poemas

Malditas chispas longínquas e estelares,
Dos confins inacabados e infinitos!
Entre os brilhos mais brandos e bonitos,
Possui ainda o mais admirável dos olhares…

Amaldiçoadas sejam as flores
Que exalam o frescor…
Rosas em tom “vermelho-dores”
Que realça em mim o teu ardor…

Funesta e febril atmosfera matinal
Que celebra mais uma vez a memória…
Não remata a carência crua e passional,
Nem finda com um ósculo a nossa história.

Marcelo Belini

Valsa claudicante

Publicado: agosto 24, 2011 em Poemas

A valsa que soa ao fundo
Não passa de desilusão…
Assim caminha o mundo
Que gira em uma única direção…

A dor encerra o anoitecer.
As lágrimas limpam o semblante,
Que antes ria sem saber,
Da badalada triste e claudicante…

Resta ainda o paladar
Que superou a razão…
Um sorvo a escoltar
Aquele que se isola em solidão.

Seria a mais bela valsa?
Ou seria apenas mais um tango?
Verdadeira ou falsa?
Rejeito-te ou tão-somente amo?

Marcelo Belini

Analogias

Publicado: agosto 10, 2011 em Poemas

O desespero é como o sol
Que nos faz observar o caminho…
Arde, queima, porém, instrui.

A esperança é como a lua
Que se esgueira por entre a escuridão…
Esconde, maltrata, porém, alivia.

A saudade é como o vento
Que nos toca sem percebermos…
Invisível e sensível, porém, presente.

Já o amor… O amor é demência!
Mesmo em sua mais baixa massa volumar,
Impede-nos de raciocinar,
Sentir,
Ouvir
Ou expressar…
Mas como viver senão como um demente
Em sua mais gloriosa euforia misantropa?

Marcelo Belini

Tragicidade e existência

Publicado: junho 17, 2011 em Poemas

O delírio dos insanos corações
Vale mais que todo o santificado…
É a mais rica e bela das orações
Carrega em si o fragor do grito silenciado.

O deserto que encerra a vida
É a mesma e tola esperança
Que revive a carne crua em ferida
Desfazendo o mal que maltrata e encanta.

E na alma que semeia e floresce
A débil e doce desilusão…
Nobre enquanto a amargura cresce
Nutrindo a angústia como paixão.

A mais trágica das tragédias
Não condiz com o brando tremor
Que possui em mãos as rédeas
Da condução exata do demônio interior.

Os estigmas existenciais
Carregam inúmeros atos e atores…
Disfarçam-se por entre os muitos “ais”
Que enaltecem e violam as suaves dores.

Na região mais sombria de nosso ser
Não existe nada sagrado ou seguro…
Compreendo mesmo sem conseguir perceber
O miasma que agora é imoral e impuro…

Marcelo Belini

Cárcere

Publicado: junho 17, 2011 em Poemas

O cárcere que finda o pensamento religioso é semelhante em representação e em forma da ausência de conhecimento ultrapassada pela mente livre de dogmatismos letais, que são válidos, em suma, para consigo mesmo e para com o próximo, como o aniquilamento de um alvedrio – ou o mais altivo patamar da debilidade de uma “criação” que nunca fora criada.

Marcelo Belini

Parado-xo

Publicado: maio 21, 2011 em Poemas

Durante o dia
Não sei o que faço…
A noite nada fazia
Pois se cheiro a laranja
Sobra o bagaço
Que antes nutria.

Marcelo Belini

Parado-xo II

Publicado: maio 21, 2011 em Poemas

Calibrei-me
De maneira tal
Que morri.
Esquivei-me
Da ira fatal
Confinada em mim.
Sorri,
Vivi,
Prestei dores,
Desvalorizei amores
E
Acabei por acabar…

Marcelo Belini

Sobre o Ensino Público

Publicado: abril 14, 2011 em Poemas

Ao entrar em sala de aula
para lecionar,
deparo-me com faces pálidas
e descontentes pela própria imposição
de não se poder descontentar-se.
O quadro negro
(que em suma se resume em um verde
sem vida e antinatural)
se esvai em letras e contornos desconexos.
O ventilador, já capenga,
de tanto trabalhar contra o vento,
espalha ruídos estremecidos que só
se silenciam ao soar do sinal
das trocas de aulas,
ou temas,
ou professores (mecanizados e supérfluos),
ou apenas cadeiras e carteiras…
(o sinal ainda é um sinal que remonta aos tempos das
maquinarias arbitrárias e desumanas…)
As carteiras… rabiscadas pelas
mãos de quem tentou ao menos se
expressar (e talvez não soube)
e foi calado pelo peso moribundo
e moralizante das regras que regem
um sistema decadente.
Meu ânimo é posto à prova
todos os dias…
Assim como minha sobrevivência
(contas e afazeres)
que depende do suor, saliva e cérebro que
me acompanham.
O tempo passa?
ou apenas eu passo em detrimento a ele?
Creio que às vezes (na maioria das vezes!)
uma grande bunda na TV é muito mais,
muito mais importante
que qualquer teoria de Nietzsche,
Freud ou estrofes de Camões…
As paredes descascadas impõem
os limites físicos
de cada leva de seres humanos
em eterna aprendizagem…
As janelas. Sim, As janelas!
Deveriam estar escancaradas.
Assim como deveriam estar
abertas as consciências…
Mas estão fechadas como os livros
que se deitam suntuosamente sobre
as mesas anatomicamente bucólicas,
esperando que alguém os abra,
mesmo que seja somente para desenhar
“chifrinhos” em imagens
de autores eternizados em suas
fotografias e que se espantam
pelo uso e desuso da solidão
por entre páginas, pessoas
e pensamentos fantasiosos
(até mesmo desnecessários)…
O tempo passa!
E eu passo em detrimento a ele!
Temos mais aparelhos eletrônicos
que canetas e lápis
(ou cadernos e idéias)
E tudo isso importa?
- é claro que importa!
Importa muito ao capitalismo,
ao sistema,
à globalização “norte americanizada”
da realidade submersa em efemeridades…
O papel do Mestre…
Ficou apenas no papel…
Assim como esse poema que
começa em uma folha e
se finda nela própria.
(quem dera o papel do papel fosse
ecoar revoluções íntimas e
transcendessem a linha limítrofe
do papel para a práxis…).
Os sorrisos languidos, soltos
como as falas que norteiam
do Sul ao suposto Norte
das salas de aulas.
Bonés, gorros, moletons,
esqueletos revestidos de carne
e ilusão.
A escola se transformara em ponto de encontro.
De todos os possíveis encontros…
Mas, esqueceram de avisar
A própria Educação.
A expectativa que tenho,
é de não criar expectativas…
Não posso gritar:
- “Danem-se todos!”…
Não, não posso! (a minha honra ainda me conduz)
Sem bem que gostaria muito…

Marcelo Belini

Homo Absurdum

Publicado: fevereiro 26, 2011 em Poemas

Na escala evolutiva do pensamento humano, nos deparamos apenas com dois episódios que merecem uma análise mais detalhada: o homem racional (voltado ao absurdo e ao devir) e o homem do mistério (voltado ao metafísico).
No primeiro caso, ao se utilizar da razão, o ser humano se descobre com as inconstâncias do mundo e da realidade que o cerca. Tais elementos se observados não farão sentido de imediato (e talvez nunca o façam) e ao aceitar essa ausência de sentido ou “no sense”, acolhemos de bom grado o absurdo. O absurdo carrega em si próprio o próprio devir revigorante e progressivo (fator determinante) que persistirá a saga humana em uma linha evolutiva da existência e do intelecto.
E o que dizer do segundo caso antes citado?
A eles, o mistério que encerra toda metafísica se transformará, mais uma vez, em uma pilhéria já conhecida de nós todos, ou seja, se transformará em cruzes, estacas e coroas de espinhos, além de demarcar um retrocesso à margem da evolução humana (que é por si mesma uma finalidade).

Marcelo Belini

Pesares

Publicado: fevereiro 24, 2011 em Poemas

Antes o ódio exalado
Que o olhar que furta o presente
Ou a lágrima que desvia o passado,
Fazendo do futuro uma angústia urgente

Marcelo Belini

Humana sabedoria

Publicado: fevereiro 24, 2011 em Poemas

O olho que tudo vê
Possui uma mente que a tudo conhece…
Seu corpo pode até perecer,
Mas, a sua alma carregará tudo aquilo que não preste.

Marcelo Belini

Verbo amar

Publicado: fevereiro 20, 2011 em Poemas

Um souvenir heureux est peut-être sur terre plus vrai que Le bonheur! – A. de Musset

Ver-te em partida
É dizer que morrerei…
Negas o peso e a medida
Que de tanto amar-te suportei.

Vê-la cálida e caída
É sofrer em sonhos…
É viver em fria neblina
Calando os versos que componho.

Tê-la em pele nua,
Tua pele tão alva…
Como a abóbada da lua
Que ignora o sabor de tua alma.

O sentimento que estiolou
Como a uma flor…
Traços daquilo que rascunhou
Mascarando a mágoa com gotas amor.

Amor que desfrutou
Como gozas o pesar…
Sou eu quem mais te amou
Como manda o verbo amar.

Marcelo Belini

Rodol-fo(i-se)

Publicado: fevereiro 20, 2011 em Poemas

Ao amigo que deixou sua nação
Mas não deixou de lembrar-se de seu povo…
Ao voltar demonstrou a mais bela gratidão,
Permanecendo Neto, Thiago ou apenas Dodo…

Foi em busca de um sonho,
Uma amizade que deixou o Brasil…
Afeição que declamo e proponho:
Rodolfo das saudades mil…

Com o violão em outras terras a tocar
E o seu coração em outro continente…
O abstracionismo lírico a aguardar
A volta do poeta e sua fala abrangente.

Companheiro de peregrinações ousadas…
Sempre disposto a oferecer assistência.
Seja em campo aberto ou em meras pousadas,
Alma serena seja para o caos ou clemência…

Marcelo Belini

Desfocado instante

Publicado: fevereiro 20, 2011 em Poemas

Um frasco de perfume guardado,
Uma caneta perdida…
Telefonemas e o choro rasgado
Por conta da triste partida.

Acontecimentos e fotos
Risos e desejos…
A vida muda o foco
Permanecendo o medo…

O nó na garganta que aperta
E a solidão que se alastra…
A cabeça sempre em alerta
Para a lembrança que alivia e castra…

Marcelo Belini

Ode a Antonio Chiari

Publicado: fevereiro 8, 2011 em Poemas

Quantas vezes irmão marchei só
Pelas ruas e praças perdidas…
Constantemente o tragadeiro era apenas um nó
Mas, em tua sombra encontrei a medida.

A contagem do tempo se extinguiu
Embora lamentemos o desperdício e o clamor
Vive como o poeta que simplesmente fingiu
Que simulou até mesmo que era “dor”.

O tempo continua sendo inconstante,
Mudando a sua rota, mas, não sua direção.
Sigo-lhe como Virgilio era seguido por Dante…
As paisagens mudaram… Meu estimado mestre não.

Assim como em outras ocasiões,
A distância é uma torpe inimiga:
Se não separa dois corações,
Separa o afago da mão amiga…

Brindo à sua duradoura saúde,
Com a alma carregada de dor.
Bebo só, mesmo que isso me amiúde,
Pois sei que longe de ti o vinho não tem sabor…

Marcelo Belini

Olhar distanciado

Publicado: fevereiro 7, 2011 em Poemas

Triste fim para nós dois…
Recordo-me enquanto componho.
Sobrou o que não é, levou aquilo que não foi,
Sem saber diferenciar fato de sonho.

Ainda me atrai o que não se fez,
Retomando um caminho antes traçado.
Corrói-me o sentimento que se desfez,
Ficando apenas o olhar distanciado…

Marcelo Belini

Dúvida atestada

Publicado: fevereiro 7, 2011 em Poemas

Nunca sei se a paixão
É enigma ou solução…
Se é bonita como a luz do relâmpago
Ou se assusta como o som do trovão…

Se é tormenta ou calmaria,
Se alimenta ou esvazia,
Precipício ou alto monte,
Equilíbrio ou pensamento distante…

Não sei se se enquadra em alquimia
Ou ciências humanas…
Metafísica e filosofia…
Será sagrada ou meramente profana?

Música aos ouvidos
Ou uma eclosão manifesta?
Reboliço dos sentidos,
Ou apenas um prazer que o corpo atesta?

Marcelo Belini

Condenados à Fome

Publicado: fevereiro 7, 2011 em Poemas

“A fome é a dinamite do corpo humano”. (Carolina Maria de Jesus)

Nem só de amor e sonhos
Vive o homem.
Ele é o que luta,
Lembra, sente e come.

Nele jaz a vida que deixou de levar.
Pelas rotas que traçou… Pelas escolhas que fez.
É o jogador que tem seu corpo trêmulo ao pensar…
Que dele tudo fracassou por terem sempre lhe pulado a vez.

Roto e carcomido, contudo, alegre…
Leva a vida que tem;
Arrasta a vida que “deus” ateste;
Pelo caminho do meio buscando o bem…

Conduz-se em sua própria sorte.
Não se acomoda ao cair,
Desde que a queda não o leve a morte.
Aquilo que o maltrata o faz prosseguir…

Lou Haro e Marcelo Belini

Humana Desconfiança

Publicado: fevereiro 6, 2011 em Poemas

O que eu sei sobre você?
O que você sabe sobre mim?
A desconfiança é a chave do “porque”,
O convívio é o início do fim…

É desconcertante e repugnante quando alguém próximo a você (ou nem tanto assim – o que faz com que a situação seja ainda pior) acredita severamente que o conhece mais do que você próprio. O mesmo procedimento e opinião cabem ao inverso. Pensar saber algo sobre outrem é não saber! É o não significa e o não representado. Por isso a desconfiança deve ser colocada como início de qualquer relação humana. Manter-se distanciado é o segredo desde o início até a finalidade alcançada (toda e qualquer relação é restringida de interesses pessoais – o ser humano continua sendo patogenicamente narcisista e egoísta – por que deveria de ser diferente?).
Suportar a natureza humana (mesmo pertencendo a esta decadente classe biológica) já é uma tarefa árdua por demais…

Marcelo Belini

Educação e capital

Publicado: fevereiro 6, 2011 em Diversos

A educação como processo emancipatório e natural deveria ser a representação da idéia de homem perante a sociedade. Se tomarmos como premissa que a sociedade de hoje é muito mais voltada ao capital que propriamente ao intelectual, deveras que o sistema educacional seja quase um completo caos; mas isso não deve se enquadrar como alguma novidade…

Marcelo Belini

História e Metafísica

Publicado: fevereiro 6, 2011 em Diversos

A história nos mostra aquilo que foi exposto à uma narrativa já superada; escrita por mãos e pensamentos daqueles que outrora bradaram uma vitória efêmera. Mas quanto há de metafísica em um discurso histórico? Por mais que eu tente me afastar e o meu repúdio pela própria metafísica aumente, quanto sobrará de minhas interpretações? História e metafísica, qual a distinção exata que há fora do aceno existencial momentâneo e subjetivo?

Marcelo Belini

Cabelos I

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

Mulher II

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

Gato de Óculos

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

Cria(r)nça

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

O Grito!

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

Olhar…

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

Olhar...

Velho

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

Velho Velho

Busto e sombras

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Desenhos

Ócio Criativo...

Ais (aflição do mundo)

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Poemas

Já não ouço mais a música que ouvia,
A vida já não oferece mais o que antes oferecia…
Será interesse ou é aquilo que outrora se previa?
Será desavença ou pura desarmonia?
Sei que, pelos meus atos eu não merecia…
Prevalecerá então dor, angústia ou simples agonia?
Consumi tudo, menos a minha enfastiada energia…
Perdi-me na aflição para provocar uma singela alegria…
Observar seu sorriso era o que eu mais queria,
Mas estive cego no momento exato em que você sorria…
Acostumei-me: a tragédia sempre foi minha filosofia
E as dores que norteiam o mundo, minha maior fantasia!
Se fosse fácil tolerar, eu não reclamaria…
Resta-me suportar aquilo que antes não suportaria.
Agora sinto que é possível morrer pelo que se mataria!
Não pode ser loucura… Muito menos sabedoria…
Se for alucinação, que seja uma epifania!

Marcelo Belini

Amo em louvor

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Poemas

Ainda que muito falado ou dito,
O poema, assim como o amor
Não nasce do improviso,
Carece de paz, quem sabe dor…

Não calo o que sinto,
Embora a saudade insista em torturar.
De seu olhar permaneço faminto,
Tua voz é o que me leva a acreditar…

Meus pensamentos não seus,
Tenho você dentro de minh’alma.
Perco-me em desejos meus,
Somente tua sensatez me acalma…

Sou mero aprendiz,
Sou um passivo expectador,
De minha bela imperatriz
Que amo tanto e tanto amo [em louvor]…

Sou súdito, meliante servil
Da beleza mais admirável.
Refém da distância vil,
Que impõe um pesar insonhável…

Tens-me por completo,
Sou todo teu e de mais ninguém.
Faças o que achares correto,
Pois tenho fé naquilo que te convém.

Sei que meu dia ao teu lado chegará,
E espero que não tarde.
A vida então sorrirá,
E seremos então, felizes de verdade…

Marcelo Belini

Saber amar…

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Poemas

Soubesse eu, penetrar em teus sonhos;
Pudesse eu, sentir teu calor…
Seria eu um homem novo;
Sentiria novamente o teu esplendor…

Seria eu, a mais bela melodia,
Para fazer seu corpo bailar…
Assim como a simples poesia,
Que a sua vista logo chegará…

Seria eu, a brisa suave,
Para que seus cabelos balancem…
Como uma marca boa que não se apague,
Mas que seja sempre sentida de relance…

Que eu seja o primeiro a estender a mão,
Caso você necessite…
Que eu seja o princípio da negação,
Em alguma ocasião que a vida a prejudique…

Serei perda e perdição;
Aquilo que aplaca e desata…
Serei amparo e salvação;
Aquilo que se deseja, mas não detrata…

Sei que ainda sou pouco
Daquilo que gostaria…
Mas, por tudo que sinto e ouço
Está chegando o grande dia!

Marcelo Belini

Ensina-me

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Poemas

Sinceramente, já não sei o que sinto.
Se, digo: – Amo! Em muito, Minto.
Pois o mesmo amor não suportaria,
Ver aquilo que ao longe, o próprio amor, invejaria.

Nossa afinidade é o retrato,
É o esboço e o caminho exato.
É a união de corpo e verbo,
Num tom suave, sereno e soberbo.

Reciprocidade sem precedentes,
De escalas divinas e abrangentes…
É como o sol que se põe no verão
Ou o ajoelhar singelo, numa singela, oração.

Post scriptum:
Se preciso me aperfeiçoar,
É porque necessito de você.
Por favor, amor:
- Ensina-me a viver!

Marcelo Belini

Sistema Estatal

Publicado: fevereiro 5, 2011 em Poemas

Maldito Estado,
Acabado, degenerado
Seria bom se não fosse mal falado.

Estado maldito,
Sobrescrito, aflito
Não seria triste se ouvisse meu grito.

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Sistema de Merda!

Marcelo Belini

Justa Blasfêmia

Publicado: fevereiro 2, 2011 em Poemas

Deus mais uma vez me puniu.
Talvez pela minha total falta de fé.
Tirou-me aquilo que a beleza uniu,
Tornando minha vida um reles cabaré…

Assim sendo, a blasfêmia se levanta…
O herege volta de uma vez em mim,
Gritarei alto enquanto suportar a garganta:
- Pisaram nas rosas! Onde está o meu jardim?!

Se foi só ilusão, não posso afirmar.
Às vezes a ilusão faz porte da vida.
Precisamos de fantasias para continuar…
As flores se foram, ficaram as feridas…

Maldito deus dos versos incontidos,
Faz valer sua vontade sem valor…
Parece que a sua mágoa é para comigo,
Como se isso causasse medo ou tremor…

Ponho-me a desafiá-lo,
Sem saber se realmente existe…
Eu era jovem quando resolvi deixá-lo,
Nem por isso fui mais feliz ou triste…

A inveja de um deus se deve à sua impotência.
Não sabe viver como um simples mortal.
Seus atos a punir aqueles que buscam sua presença,
Deixando aqueles que realmente acreditam, muito mal!

Antigamente achava que fazia coisas erradas
E isso pesava como um fardo estigmatizado.
Hoje eu bem sei que não devo nada
E mesmo assim sou constantemente castigado.

Eu sei pelo que me queixo…
E deus parece ignorar.
Se foi o abraço ou beijo,
Sei apenas do que não vou desfrutar.

Supondo que ele exista,
Que mal fiz a ele?
Em seu sistema absolutista
Eu sei o que algo ele teme…

Marcelo Belini

Falacioso devaneio

Publicado: outubro 28, 2010 em Poemas

Criar, compor, transpor, transcender…
Sacrificar a essência da vida
Com a representação fálica e falaciosa
Dela própria.
Todo simulacro que se enterra em devaneios
É o resto da divindade mortificada
E por muito já esquecida.
Infrutífero é ato da criação
Que em uma atividade egocêntrica
De interiorização
Faz fluir o néctar putrefato
De sorrisos insólitos.
Os caminhos estão alterados
Por sinais de advertência que em nada
Mudam o percorrer.
Criar, compor, transpor, transcender…
Escrever para não subjugar.

Marcelo Belini

ParaLelo Silveira

Publicado: outubro 21, 2010 em Poemas

Meu velho amigo e mentor pederasta
Cenobita das sabedorias seculares
Crítico do que vê e por onde passa
Não hesitaria em mandar tudo “pros” ares!
Seria uma seda, se não fosse tão enrugado…
Querido mártir, místico cristão!
Para criticar a fauna política, tão afobado,
Que de tão injustiçado, pisoteia o calção…
Velho Lelo, adolescente em rebeldia,
Ex-militar recém licenciado…
Meu é todo o prazer, toda a alegria,
De sempre vê-lo tão inconformado…
Bela disciplina que te ensinaram no quartel;
Agradeço ainda belos incontáveis cigarros…
Sinto tanta falta de oscular tua cara de pastel,
Que ainda ouço teus escarros!
Seu pai de ti se orgulha(ria),
Se soube(sse) o quanto construíste…
Se vê(sse) que sempre com o dedo em riste,
Berra ao primeiro sinal de tirania…
Sem Lelo, a filosofia se tornaria vã,
A poesia não se daria em poemas…
O amor não teria a fraternidade como Irmã,
E aquilo que incomoda não seria um problema…
Mas não ache que o bajulo…
Puxar o saco não é do seu (nosso) feitio.
Amamos-te como o bêbado que urina no muro,
Amamos-te pra cassete, puta que pariu!
Lelo Silveira, caro amigo e professor.
Homem com “h”! Cumpre sempre o que prometeu…
Mas, faço um pedido. Faça-me um favor…
Se for pisar em ovos, que não sejam os ovos meus!
Compartilhamos contigo todo o sofrimento que é o Estado,
E a vontade de acabar com o sistema e louvar o humilhado,
De ensinar o correto em um princípio totalmente equivocado!
Desfrutar da ocasião, mesmo que em róis de um tempo passado.
Irmão do fogo, em Maat consumido,
Vaticino enfim sua recompensa:
Não serás pela dor carcomido,
Nem pela agonia do ser que pensa;
E mesmo com o peito ferido,
Não existirá nada que não vença…
Sem fé, encolhido;
Sem projeções, sem esperança,
Venha! O som da vida já está em ti contido,
Logo, só te resta a dança!

Antonio Chiari e Marcelo Belini

Moralidade e retardamento moral

Publicado: outubro 14, 2010 em Poemas

A moralidade não passa de uma convenção entre seres aptos à sociedade, ou seja, um pacto social tácito ou não (quando não tácito, recorreríamos às leis para fundamentá-lo). Eis que se apresenta o questionamento que não que calar: De que maneira ainda existem indivíduos que firmam sua base moral em abstrações e alegorias metafísicas que se encontram confinadas em livros (escritos de certo por pessoas que exacerbavam sua imaginação e com isso descarregavam suas neuroses em textos infantilizados) que apresentam e ultrapassam algumas centenas de anos de retardamento moral e ético?

Marcelo Belini

Sobre os professores

Publicado: outubro 6, 2010 em Diversos

Lecionar da maneira que o sistema nos impõe é, sem sombra de dúvidas, uma minimização e uma alienação intelectiva. Os catedráticos se tornaram o mais alto grau do populacho (para não dizer cínicos). E isso indica uma grande e contagiosa lobotomia conceitual no processo da licenciatura. Por isso Cioran foi sensato ao identificar a morte (ou assassínio) do discípulo que havia em seu interior, como o primeiro passo para o encontro de uma educação verdadeiramente plena e emancipada.

Marcelo Belini

Extrema negação

Publicado: outubro 5, 2010 em Poemas

Ao se clamar por um deus qualquer, negamos de pronto modo alguns milhares de anos de evolução; negamos ainda, de forma mais extremada, a natureza humana e o pouco de inteligência adquirida neste longo processo evolutivo.

Marcelo Belini

Sobre a ideia de deus

Publicado: setembro 17, 2010 em Poemas

Já faz muito tempo que me desvencilhei da ideia fantasmagórica de deus… Mas ainda sou assombrado pelos olhares cansados e inquisidores de senhoras devotas e crianças ingênuas e dogmatizadas por um sistema religioso.

Marcelo Belini

Esperança e conveniência

Publicado: setembro 17, 2010 em Diversos

Minha esperança faleceu inúmeras vezes e dela nada me foi útil. Ser-me-ia improfícuo relembrá-la como um pilhador que volta à espreita de um cadáver para dele furtar o que lhe convém…

Marcelo Belini