Talita Cumi*
Hoje acordei sozinho,
Mais do que pude compreender.
O silêncio se fez em meu ninho,
Não foi o mesmo meu amanhecer.
Mais uma vez o silêncio
Em mulher se traveste,
Norteia meus pensamentos,
Reflexões em forma de prece.
O silêncio de cabelos a balançar…
Corpo de mulher, face de menina,
Ingenuidade de criança, força de Iemanjá
Alva como a neve, hálito de neblina.
Deixem-me acreditar
Que o silêncio me contemplava.
Deste momento ainda guardo o soluçar,
As palavras vieram, mas eu não ouvia o que falava.
Apenas hoje não farei o que antes faria,
Tentei sentir meu coração,
O estranho é que ele não batia…
Que maldita e bela sensação!
Seu corpo em fogo ardia
Num molde nunca antes visto.
Mais do que alguém diria,
Sonhado sim, mas nunca antes previsto.
Justo eu que entendo de Filosofia
Ao me dispor ao silêncio
Senti que todo o meu corpo tremia.
Todo este torpor, eu ainda não entendo…
Por hoje tive de suportar
Toda minha agonia.
Mas ainda vale recordar
Tudo aquilo que esquecer eu não queria.
Olhar cristalino em tom azul
Como se contemplasse todos os lugares.
Semblante puro e exótico, nada comum,
Olhar de deusa, o mais belo dos olhares…
Mas hoje pelo que recordei
Acordei só…
Singular, desacompanhado desde que acordei,
Se não fosse (eu), teria pena, causaria dó…
Terminei por escrever
E surgiram tais escritos…
Terminei por recorrer
Ao pensado pelo não dito…
Que a sua chegada
Não seja a minha partida.
Que o silêncio seja a minha morada
E o adeus não seja uma despedida.
*O título deste poema remete ao Evangelho de São Marcos capítulo 5, versículo 41 e a todo um sincretismo intelectivo atenuado em devaneios oníricos realçados numa existência pautada em poemas, perdas e outras idiossincrasias.
Marcelo Belini

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