A noção, mesmo ilusória, do amor não pode ser aceita como a representação fidedigna de um “paraíso edênico”, mas, com absoluta certeza, faz com que evitemos algumas passagens mefistofélicas dentre labirintos infernais.
Marcelo Belini
A noção, mesmo ilusória, do amor não pode ser aceita como a representação fidedigna de um “paraíso edênico”, mas, com absoluta certeza, faz com que evitemos algumas passagens mefistofélicas dentre labirintos infernais.
Marcelo Belini
Inesperadamente tudo se torna banal…
Ou eu poderia ter previsto?
O bem já não importa se é mal
E o susto é a monotonia em que existo…
Seja como for, assim o é…
Tal qual a ideia mazelada
A blasfêmia se fortalece na fé -
Mesmo a fé se alicerçando no nada…
O absurdo passa a ser a salvação:
A falta de sentido e o estranhamento…
Um sim equivale à negação
E o abraço é construído no afastamento.
Marcelo Belini
Hoje acordei estranho…
Parecia que despertara
em busca da
felicidade…
Procurei o relógio
para saber em que momento
eu poderia tirar essa ideia
da cabeça…
Virei para o canto e
adormeci.
O sono é sempre
uma boa solução
para uma imaginação
estúpida e ideias
ordinárias…
Marcelo Belini
O despertador toca. Levanto-me cedo
– quem dera em meus dias mais discretos,
pudesse acordar, somente, e não ser acordado
por algum mecanismo tecnológico.
Assim que coloco meus pés no chão
- após sair da cama –
a primeira coisa que faço é procurar meu maço de cigarros.
Acendo um ainda na sala,
visualizando a televisão ainda desligada
que parece transmitir e reproduzir
imagens fantasmagóricas vindas de meus adágios
(ou apenas lembranças de um tempo ido).
Mais uma manhã tradicional em minha existência
– no melhor sentido sartreano da palavra.
Depois de refletir acerca do meu dia que se apropinqua,
saio da sala e vou à cozinha.
Abdico de preparar o café
(geralmente não o faço – a água parece-me
fazer bem logo que desperto e é bem mais vantajosa
para aqueles que não se sentem à vontade
diante aos afazeres gastronômicos).
Se bem que o café deixa o ambiente perfumado,
com um aroma de casa do campo,
onde as preocupações pelo cotidiano parecem
nos deixar em paz e os contatos
com a natureza… mesmo nos trabalhos braçais,
fazem-nos, aparentemente, mais humanos,
“humanos em demasia” eu diria.
Geralmente após esses primeiros rituais,
dirijo-me ao banho.
“Banho gelado logo pela manhã
nos favorece para o restante do dia!”
já diziam os Russos
– se bem que ainda quero encontrar com
o pascácio que acostumado com o clima
de inverno constante disse isso pela primeira vez
e lhe confrontar alertando que as coisas pela manhã
nem sempre são aquilo que as frases feitas revelam.
O banho se demonstra amigável como de costume
(talvez eu estivesse valorizando demais o frio matinal)
e ainda com os pensamentos se deslocando
em uma velocidade incrível e de maneira tal
como se não existisse uma ordem lógica dos fatos,
esqueço ou não percebo os calafrios que a água fria me acarreta.
Enquanto o tempo se esvai,
continuo com pensamentos de adeus (assim eu os chamo).
Mesmo que não os queira,
tais pensamentos parecem se edificar
em algum recanto obscuro e calmo de minha alma
– essa palavra (alma) soa-me poeticamente suave,
ainda que eu não acredite em vocábulos
que representem alocuções metafísicas ou teológicas -,
essas reflexões nascem na ocasião em que
rememoro os momentos que não vivi
ou instantes que ainda não se fizeram tangíveis,
por isso parece que digo adeus à eles,
pois bem sei que mesmo que vivesse
mil vidas iguais a mesma que vivo,
não seriam suficientes para contemplar
meus atilamentos desejosos de atitudes
que me afastem da monotonia do tempo presente.
A água cai intensamente em minha já cabisbaixa existência.
Olho-me diante do espelho e
Questiono-me se deveria aparar a barba falha
e o cabelo (que parece de alguém que acabou
de sair dos dias de insanidades do festival de Woodstock)
ou se simplesmente deixo a natureza se manifestar.
Mais uma vez a natureza vence
e a longa cabeleira e os fios de barba
permanecem como se já estivessem nascidos ali.
Ando até meu quarto.
Já no quarto, começo a fazer escolhas.
Qual a melhor camisa?
Com qual calça passarei o dia?
Qual a cor do par de meias que utilizarei?
Exclamações de angústias (quiméricas angústias) nascem.
De repente, me pego com um sorriso irônico
(ou seria sarcasmo?)
nos lábios e o primeiro pensamento
que aparece logo após essa surpresa,
é o fato das alternativas casuais.
Preparar-me para que?
Vestir-me adequadamente para quais ocasiões?
Ocasiões que nem sei se existirão ou se vierem,
quais seriam seus benefícios ou malefícios?
Sorrateiramente me lembro de certas expressões
contidas em algum dos meus livros lidos e relidos com devoção:
“a roupa serve apenas para cobrir aquilo que é belo”.
Essas palavras me confortam,
então não mais opto por roupa alguma e
apenas alcanço a primeira que minhas mãos tocam,
substituindo assim dúvidas tacanhas
por ações mais mesquinhas ainda.
As alternativas casuais subitamente
fazem-me relembrar Dostoiévisk
em sua obra “Memórias do subsolo”
– logo em seu início:
“sou um homem doente…
sou um homem mau.
Um homem desagradável”.
Mas por que tamanho alarde
sobre tais circunstancias?
E mais um dia se lança ao meu encalço…
Marcelo Belini
O sol se levanta antes de mim
ou eu nem percebi que ele não
estava lá quando levantei?
Bom, isso pouco importa…
O que me resta de um dia prestes
a se mostrar infrutífero
é o cigarro comprado ontem à noite,
amassado (como a minha face ao acordar),
mas, fortificante e prazeroso (como um orgasmo
nunca antes imaginado…)
Não sei de certo onde meus pensamentos
me levarão… Se não me levarem a lugar algum
também não mostrará diferença…
E todos me avisavam:
- “Você tem que dar certo na vida!”…
E eu pensava: “dar certo pra quê?”
Se a vida não passa de um emaranhado
de momentos infecundos que
teimamos em buscar significados
mais inúteis ainda…
Tudo não passa de metafísica…
E metafísica é um porre!
Marcelo Belini
Malditas chispas longínquas e estelares,
Dos confins inacabados e infinitos!
Entre os brilhos mais brandos e bonitos,
Possui ainda o mais admirável dos olhares…
Amaldiçoadas sejam as flores
Que exalam o frescor…
Rosas em tom “vermelho-dores”
Que realça em mim o teu ardor…
Funesta e febril atmosfera matinal
Que celebra mais uma vez a memória…
Não remata a carência crua e passional,
Nem finda com um ósculo a nossa história.
Marcelo Belini
A valsa que soa ao fundo
Não passa de desilusão…
Assim caminha o mundo
Que gira em uma única direção…
A dor encerra o anoitecer.
As lágrimas limpam o semblante,
Que antes ria sem saber,
Da badalada triste e claudicante…
Resta ainda o paladar
Que superou a razão…
Um sorvo a escoltar
Aquele que se isola em solidão.
Seria a mais bela valsa?
Ou seria apenas mais um tango?
Verdadeira ou falsa?
Rejeito-te ou tão-somente amo?
Marcelo Belini