Sobre o sentido ou a falta dele

Publicado: setembro 3, 2012 em Poemas

É interessante notar e avaliar as variações pelas quais qualquer ser humano tende a passar no decorrer de sua breve existência seja ela motivada por uma passagem traumática ou apenas pela necessidade ilusória de mudanças que o limitaria e o transformaria em um esboço caricatural daquilo que ele permanece sendo.
Quando menciono as motivações existenciais traumáticas, ou seja, aquelas que ocorrem como uma experiência negativa de sua própria consciência, refiro-me às situações que, de uma forma ou de outra, agem como um estigma, elevando o sujeito ao ápice da contemplação estética ou ao inferno e tormento de sua mesquinhez interiorizada.
Ideais frágeis como uma pequena chama em uma tempestade se fazem presentes constantemente e se modificam de maneiras abruptas e marginalizadas invariavelmente. Posso citar como exemplos a ideia de liberdade, felicidade, beleza, poder, justiça dentre outros tantos modelos de mortificações intelectivas. O que acabamos por esquecer é que o homem por natureza permanece sendo egocêntrico e narcisista. E não seriam esses seus direitos naturais inalienáveis e a base de toda a sua chamada “natureza humana”? Não teria a humanidade todo o direito de sê-la individualista e individualizada?
O meu entusiasmo compreende a ironia maldosa que norteia a linha tênue entre o amor e o ódio. Só quem já passou por algo semelhante (e não menos subjetivo) esteve presente em sua própria destruição e em seu próprio sepulcro existencial, mas, também, teve a oportunidade de ser arrebanhado pela sonolência de seu próprio renascimento para com o mundo. Dos dois, tenho maior receio do primeiro. O amor é a forma mais precária, mórbida e injusta de nos vermos destituídos de humanidade e, através dele, podemos ver momentaneamente aquilo que o somos por meio de uma exteriorização dos nossos atos em detrimento a outro sujeito (que também carrega sua própria subjetividade, o que ocasiona um embate injusto de possibilidades, pois, o que temos é apenas uma parcela de pensamentos e anseios decorrentes de um processo como tal). Se o analisarmos por meio da neurociência o perceberemos como uma simples reação química metabolizada por passagens vivenciadas; se o pegamos do ponto de vista psicológico, podemos nos ater nas divagações que extrapolam apenas o ocorrido estético dos fatos, partindo para uma possibilidade mais acentuada na sexualidade humana; antropologicamente, temos a hipótese de um desenvolvimento estrutural humano; se o discurso for pautado na sociologia, o que teremos é a motivação ocasionada por um contrato social pré-estabelecido e relativizado. A impressão que fica é que com tantas presunções, o que nos resta é um passeio ríspido pelo niilismo (que por definição, é fraco em suas práxis, tornando-o, de certo modo, infrutífero e áspero para com suas finalidades). Com o ódio não seria diferente (ele apenas possui a vantagem da não frustração em caso de falhas posteriores).
Em todos estes casos (inclusive o amor e o ódio), o sentido parece ser algo distinguível da determinação de algum tipo de valor: valor de verdade, no caso das proposições, valor moral, no caso de ações, valor estético no caso das emoções ligadas á beleza. O próprio sentido dessas coisas pode ser entendido como o conjunto de suas condições de valor, de qualquer tipo que seja, e aí, mais uma vez, nos deparamos com uma espécie de determinismo fundamentado no subjetivismo puro e particular. Por isso, neste ponto, sou a favor da tese cética que diria que não é possível descrever de maneira isenta o sentido de uma condição pensamental humana sem já atribuir-lhe valores. Neste caso, à primeira vista, a crítica até que pareceria mais procedente, dada a peculiaridade dos objetos analisados até o momento. Afinal de contas, existências humanas não são meras proposições onde se espera uma conclusão perfeitamente lógica em comum acordo com seus enunciados.
Não seria melhor então nos deixarmos tomar por aquilo que os filósofos definiram como absurdo? Não compreender é melhor que compreender tacanhamente ou equivocadamente – Os mitos não são construídos assim? Lançar-nos no desfiladeiro do instinto parece ser a única salvação banhada em bálsamos para o sentido inexistente da vida. Se a razão humana não pode lacrimejar em um sentido pleno, que razão teriam as lágrimas para rolarem na face de quem já não espera nada de si mesmo ou de outros seres humanos?
No final das contas, tudo é vazio, tudo é vácuo. Tudo é nada…

Marcelo Belini

Jack, o estripador

Publicado: agosto 30, 2012 em Poemas

Um assassino de olhar frio,
Sangue quente em pleno inverno.
Arrastando um semblante sombrio,
Causando temor no próprio inferno.

Um caminhar sem pressa,
Mas nada que o detenha.
O ódio é o que lhe resta,
O mal é o papel que desempenha.

Uma conversa envolvente,
Uma capa e uma cartola.
Um punhal que se põe ardente,
O sangue é a única coisa que o consola.

Em sua mente ele é a cura,
Um semeador da salvação.
Mas sua ação é má e obscura,
A morte alheia é o seu perdão.

Várias foram as vítimas e orgias,
Seja nas trevas da longa noite
Ou na clareza da luz do dia,
Pesando a força ou a foice.

Suas atribuições, um mistério…
A identidade, um enigma…
Suas obras algo de funério,
Sua face é a imagem que se imagina.

Um espectro do que era,
Apenas a treva que ronda.
Migalha ou quimera,
Da lucidez restou a sombra.

Marcelo Belini

Legião

Publicado: agosto 18, 2012 em Poemas

Algo de sombrio habita meu peito
Amarrado a força como a um grilhão…
Indago seu nome para todo efeito
E ele apenas replica: “Legião”…

Toda noite ele se agita e se inflama
Para depois, ao sol, morrer em vão…
Como quem cala aquele que muito ama
Repousa junto de mim “Legião”…

A sua presença me extasia
Sendo ódio e talvez salvação.
Noite em trevas ou luz do dia,
Sua graça, sempre, “Legião”…

A existência se finda no pranto
Ou na voz da escuridão.
Seria bela se não fosse o canto
Que canta e encanta “Legião”…

Quando a paz se faz ausente
E a esperança é traição,
A dor é forte e presente
E carrega consigo o nome “Legião”…

Se o sorriso se transformara em vulto
E o abraço em aperto de mão,
O prazer se torna oculto,
Velado pelo olhar de “Legião”…

O poeta que sabia, já não sabe se impor
Por medo, vício ou desilusão…
A pena tece apenas pavor
Ou anota tão-somente a palavra “Legião”…

Aquele que vive, carrega a finitude:
Desespero, alegria e consolação.
Bebesse o inverno à espera da juventude,
Ancorado nas vestes de “Legião”…

Nada começa enquanto termina,
Nem a partida ou a união.
Cobre minha face uma garoa fina,
A mesma garoa que cobre a face de “Legião”…

Vivida em uma colorida tela
Ou nas cores da desunião,
A vida se torna mais bela,
Como é bela a tristeza de “Legião”…

Parece-me apenas um,
Mas, inúmeros os são…
Livres para lugar nenhum,
Vários é, muitos o somos, “Legião”…

Marcelo Belini

Gélido pesar

Publicado: agosto 11, 2012 em Poemas

Entre devaneios de uma gélida noite…
Por caminhos, trilhas e rochedos…
Nasce a mão que induz à foice
Que inclina à fé posseira dos medos…

O inimigo se faz
Quando quem faz-se senhor…
A paz que antes jaz
É agora sangue, suor e temor.

O frio que consome
É como a brisa que maltrata:
Se for isto ou possui outro nome,
Não arranha, mas se aranha, mata!

Assim como a partida
É o reencontro em outro rumo,
O alívio não é a saída
Se existe o álcool, o sexo e o fumo…

Insensível de tanto ouvir…
Às escuras por tanto ver…
Castigo por assim punir,
O eu em mim que agora quer ser…

Marcelo Belini

Eu

Publicado: agosto 3, 2012 em Poemas

Conheço a linha entre a desgraça e a glória…
O lado inverso e sujo de toda história.
Vi a mão que afaga e o verbo censurado…
A proximidade que fere e a brisa do cuidado.

Senti o punhal que perfura e corta…
O bem que habita e o mal que bate à porta.
Permanecendo como um campo de batalha…
Onde as trevas reinam diante de uma luz falha.

Sinto o cheiro constante da desventura…
O diabo ronda-me. Não de baixo, mas das alturas!
Um anjo cai carcomido aos meus pés…
Gargalho seu azar e invejo sua falta de fé.

A noite é minha única companheira…
Que se vai ao raiar do sol de qualquer maneira.
O som que ouço é destonado…
E a esperança que tinha, mudou de lado.

Uma imagem fantasmagórica é o que resta…
Uma vil caricatura daquilo que não presta.
Um santo sem santidade…
Tentando se alimentar de uma falsa verdade.

Minha religião é meu sofrimento…
Uma sensação que carrego e alimento.
Minha política é a contradição…
Que se faz em animosidade e oração.

Mas nada disso tem importância…
Já que o espelho reflete ódio e ganância.
Se o sorriso antes ficava a espreitar,
O que sou eu senão um ato falho a calar?

Marcelo Belini

Aniquilamento

Publicado: agosto 1, 2012 em Poemas

Aniquila minh’alma
Como quem quer…
Desfaz minha calma
Com um gesto qualquer…
Ri da minha solidão
Com sua presença…
Enaltece uma ilusão
Ao passo da indiferença.
Maldade ou benevolência?
Sagrada ou profana?
Seria culpa ou sentença?
Temor ou apenas drama?
Panaceia ou doença?
Cala ou proclama?

Marcelo Belini

Terra esquecida

Publicado: julho 20, 2012 em Poemas

Numa terra esquecida por deus
Onde a violência voeja solta,
Ninguém se une aos seus,
Não há vida, apenas uma ilusão rota.

Ele acordara cedo e se propôs ao trabalho,
Como fazia de maneira rotineira.
Mas nesse dia estranho e de ar falho
Algo mudou – como muda da mesma maneira.

Ao chegar ao seu posto labutar
Deparou-se com algo surpreendente:
Um sorriso encantador e um nobre olhar
Que o deixara embriagado de repente.

O mundo se transformara num paraíso
Que o homem jamais sonhou…
Sentindo a felicidade que nunca havia visto,
Um esboço de sorriso a face lhe cortou…

Seria fantasia, musa, deusa ou santa?
A cabeça girava e o peito se comprimia…
O encanto agora se ergue e se levanta
Trazendo à luz o que antes nas trevas jazia…

O tempo passara devagar neste dia
E o pensamento apenas se resumia a ela…
A perfeição em tudo que a ela atribuía…
Um vislumbre da liberdade e chancela.

O dia estava por se findar
E a angustia crescia.
Os momentos distantes estão por chegar
E a paixão, mais uma vez, é uma ponte entre duas vias…

A noite cai e os sonhos não vêm…
O travesseiro não é agradável como era…
Mas os pensamentos o detêm,
Suprimindo um pouco a agonia da espera…

De manhã, ele corre e se apronta,
Disposto a rever sua “adorada”.
Mas quis o destino que nos remonta,
Atassalhar um sonho como a uma taça quebrada…

Desta vez, ela não chagara desamparada:
Veio com ela também o seu companheiro
Que sempre a acompanhara na jornada
Mas que ninguém sabia de seu paradeiro…

A felicidade durara pouco
Na vida deste pobre rapaz
Que voltou a ser roto
Nessa terra de tanto faz…

Marcelo Belini